
Pescadores em Alcobaça. Foto de autor desconhecido. Clique para ampliar.
(Texto de Carlos Roberto dos Santos, do Canadá, enviado especialmente pelo autor ao Diário de Alcobaça)
Bem que marujo não era seu nome e nem o título lhe garantia uma vaga na Marujada de São Benedito, organizada todos os anos por dona Quina. Ele era marujo, pois era assim que eram chamados aqueles que faziam parte dos 10 a 12 pescadores da turma de Godão, Antonio Felipe, Zeloso. Antes deles, como por tradição, tinha as turmas de seu Crispim, seu Buar e antes de seu Crispim e seu Buar havia seu Fabio, pai de Buar, marido de dona Quina e como os demais, era proprietário de uma "rede de arrastão", como assim nós a chamávamos.
A pescaria de arrastão ao longo das praias de Alcobaça, dos Coqueiros, do Farol, da Mangabeira, no Zelóris fazia parte da tradição que se repetia dia após dia e ano após ano até a chegada da nova tecnologia do barco a motores.
O marujo me conta seu passado e suas aventuras dessa maneira:
Eu me lembro como fosse ontem, a gente não fazia muito dinheiro mais a gente era feliz. Nós morava numa casa com as paredes de estuco e coberta de palha de sando. Fui eu mesmo e a falecida que construiu, mais dois ou três anos depois pegou fogo. Eu acho que seu Bráulio era prefeito na ocasião. Era sim, pois logo depois o cumpade Bráulio, que Deus o tenha em bom lugar, ajudou a todos que tiveram a casa queimada a construir uma de tijolo. Gente! Mas pego fogo em tudo por ali. A gente tinha nossa casa numa rua ao norte de onde é a rua 15 de novembro. Mais assim pro lado da praia.
Nesse tempo eu pescava com compadre Buar. Homi bom demais. Nunca nos tentou passar pra trás. Dividia o peixe direitinho e tinha gente que tinha inté inveja da gente. Pois São Bernardo era muito bom para todos nós e pro compadre Buar também
O galo cantava pela terceira vez e eu já me levantava esperando alguém dar um sinal assoviando mais ou menos assim. Aí, eu pegava meu cesto e já ia me encontrar com o resto da turma e dali continuava passando por outras casas e dando o mesmo sinal e já aparecia outro marujo. Assim juntos, gozando da cara de um do outro, a gente ia pra praia. Ninguém precisava dizer a ninguém o que fazer. Primeira coisa a fazer era tirar a rede do varar e por dentro da canoa. Depois a gente colocava os remos nos seus lugares e já ia a gente pondo a tabuas e o rolo para deslisar a canoa até o mar. Este trabalho era meio barulhento pois a gente tinha que bater aqui, bater ali no rolo pra alinhar pra ele não sair de baixo da canoa.
A saída da canoa era a parte mais difícil, a gente tinha que esperar o compadre Buar dar o grito de “Vamos com Deus!”
Quatro marujos entravam na canoa e começava a remar e compadre Buar ali na proa de pé e controlando a bichinha. Quer dizer a canoa, até a gente passar a linha onde as ondas subiam. Os outros marujos iam caminhado seguindo a canoa até mais ou menos os coqueiros. Lá eu entrava no mar e ia até onde as ondas estavam quebrando pra pegar a ponta da corda que era lançada pelo marujo encarregado de jogar a rede no mar.
Eu ia puxando o cabo devagarinho e assim que a canoa jogasse toda rede e voltasse pra terra, a gente começava a puxar.
A gente lançava três ou quatro vezes por dia. Normalmentea a gente voltava pra cidade antes do almoço. Aqui mesmo, onde estou sentado, lá encima era o varal e a palhoça onde Compadre Buar mantinha sua rede e canoa. A gente tirava todo peixe da canoa e esperava o resto da turma chegar com o resto. Aí compadre Buar divida tudo direitinho. Depois, pra ninguém dizer que ele gostava mais de um que de outro ou que dava mais peixe e camarão pra um que pra outro, ele, como de costume, escrevia um número em cada folhinha dessa aqui que tenho na mão. Cada um pegava sua folhinha e ia ver qual era o quinhão que ia levar para casa. Se tivesse peixe grande e fosse vendido inteiro, o dinheiro era divido também.
Rapaz, naquele tempo tinha peixe demais. A gente às vezes ficava com a rede estacada, quer dizer sem puder trazer pra terra de tanto griamâs. Uma vez nós enchemos cinco cestos de samucanga.
Quando o tempo tava chuvoso a gente ia assim mesmo. A gente só não ia quando dava aquele vento sul retado. Aí ninguém ia pescar. Mas tarde o pessoal aprendeu a ir por arrastão no rio pra pegar robalo ou camuriaçu.
Você já ouviu falar de mero e canapu de três metros: a gente pegava. Aquilo às vezes era fêmea e só os ovos dava pra encher duas latas de querosene.
Na parte da tarde a gente descansava, fazendo outras coisas. Buscando lenha, remendando rede e até às vezes eu pegava umas iscas, uma vara de pesca e voltava até o farol pra pescar outra vez.
Quando o vento tava bom e São Bernardo ajudava, eu voltava com duas curvinhas, dois bagres, alguns lawê e uma galha preta. Teve uma vez que voltei pra casa com cinco calafates gordos deste tamanho! Já peguei, sem contar mentira, um cação martelo. Rapaz, aquilo me deu um trabalho, Eu ficava correndo de uma lado para ou outro da praia só guentando a linha com medo dela estourar. Mais ele se cansou e eu o comi. Ele tinha mais ou um metro e meio.
Hoje, ninguém pega nada aqui na beira da praia. Nem no rio que tava assim de robalo hoje é um milagre quando alguém pega um.
Você já ouviu aquela música daquela menina Gal Costa. Aquela que diz assim: “Purificar o Subaé e mandar os malditos embora...” Eu acho que ela devia mudar o nome Subaé e dizer Itanhém. Pois é menino a gente era feliz. Vivia na simplicidade, isso aqui era um família Eu não quero que meus netos sejam pescadores como meus filhos são. Não Senhor.
























