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O legado dos Medeiros para a arquitetura histórica de Alcobaça

Data: 19.7.10 Nenhum comentário

Já faz quase um ano que foi publicado o livro "O clã Medeiros de Alcobaça-Bahia", primeira obra da série sobre a história dos antigos clãs do extremo sul da Bahia. O livro continua entre os 10 mais vendidos no site Clube de Autores. Para quem ainda não o conhece, resolvi destacar aqui um trecho dele sobre o legado dos Medeiros para a arquitetura histórica de Alcobaça. Os Medeiros foram donos de alguns dos mais importantes prédios antigos de Alcobaça, construídos entre a segunda metade do século XIX e início do século XX. A história de algumas casa está indelevelmente ligada à história das famílias Medeiros que as habitavam. Vejam o trecho do livro:

As casas dos Medeiros em Alcobaça

O centro histórico de Alcobaça deve aos Medeiros alguns de seus prédios mais antigos, construídos na segunda metade do século XIX, e mais interessantes do ponto de vista arquitetônico. Alguns desses prédios foram objeto de estudo e recomendações de uma comissão técnica do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), que esteve em Alcobaça entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

A equipe do IPAC visitou, por exemplo, o casarão localizado na rua Pedro Muniz, número 190, que originalmente pertenceu ao capitão João José de Medeiros (1810-1878). Trata-se de uma casa assobradada em dois pavimentos com porão alto (onde, segundo a tradição popular, ficavam alojados escravos e criados da casa) e telhado de duas águas. Segundo a família, a casa teria sido construída por João José, provavelmente na segunda metade do século XIX. Com a morte de João José, o imóvel passou, por herança, a seu filho, o tenente-coronel Ismael Teixeira de Medeiros (1848-1909) e depois da morte deste, para a viúva Ritta da Costa Medeiros e seus filhos. Depois da morte de Ritta, a casa foi vendida ao dr. José Nunes da Silva, que, por sua vez, a vendeu ao turista mineiro Alor Lins, cuja família a tem usado como casa de férias.

Outro imóvel interessante no centro de Alcobaça que pertenceu aos Medeiros é aquele onde hoje funciona a Casa de Cultura, na praça Padre José Porfírio. Não foi possível identificar o ano exato de construção do prédio, mas é provável que tenha sido na segunda metade do século XIX. Por ocasião de uma visita de técnicos do IPAC a Alcobaça o prédio não foi incluído no inventário dos imóveis históricos do município, provavelmente porque naquela época ele já estava descaracterizado em relação à construção original, que era residencial e passou a ter uso público. A casa pertenceu originalmente ao coronel Antonio Garcia de Medeiros Jr. (1861-1945), prefeito da cidade no período da República Velha. Nessa mesma casa viveu durante anos a irmã de Garcia Jr., Honorina de Medeiros Telhada (1859-1955), por quem Garcia Jr. tinha especial consideração, inclusive confiando-lhe a criação de dois de seus filhos. Um desses filhos foi Antonio Garcia de Medeiros Netto (1887-1948), que mais tarde se tornou senador da República.

Após a morte de Garcia Jr., em 18 de outubro 1945, o imóvel passou por herança a seu filho Medeiros Netto, que morreu apenas três anos mais tarde, em 13 de fevereiro de 1948, deixando a casa a seus filhos. Por não terem interesse no imóvel, os herdeiros do senador Medeiros Netto, representados pelo filho mais velho Renato Rodenburg de Medeiros Netto (1925-1971), então Secretário de Agricultura do Estado da Bahia, e pela viúva dona Carola Helena Rodenburg de Medeiros Netto (1898-1972), decidiram doar a casa ao município de Alcobaça. A doação deve ter ocorrido por volta de 1960. Segundo informações da família Medeiros Netto, a casa foi doada com o objetivo de abrigar uma escola que prestasse serviço ao povo de Alcobaça. Em 2 de novembro de 1963, o então prefeito de Alcobaça, Bráulio Nascimento, enviou uma carta à família Medeiros Netto agradecendo a doação e comprovando que o imóvel estava sendo usado para o fim planejado.

A escola de fato foi criada. Porém, já alguns anos depois, o prédio passou a ser utilizado não mais para abrigar a escola, mas para fins de recreação. A escola Garcia Júnior mudou-se para um prédio na rua Vila Penna, com o nome de Ginásio Garcia Júnior. Nesse período, o prédio original tornou-se uma espécie de clube para festas e eventos da cidade. Nos anos 1970, foi também sede da SOFLA (Sociedade Filarmônica Lira Alcobacense), uma banda responsável por tocar nas festas populares. No final dos anos 1990, passou a ter a denominação de Casa da Cultura.

Na atual praça da Caixa D’Água, esquina com a Avenida Sete de Setembro, está localizado outro imóvel dos Medeiros: uma casa tipo chalé com características tipológicas da primeira metade do século XX, pertencente a Manoel Euclides de Medeiros (1987-1970), ex-prefeito da cidade. O imóvel depois passou para a esposa de Manoel Euclides, Angelita Teixeira de Medeiros (1902-2008), que o doou a sua prima e afilhada Heloisa Medeiros, atual proprietária.

Na praça Pedro Antonio Nascimento, segmento da rua Joaquim Muniz, estão um conjunto de casas que, segundo a tradição, pertenciam ao casal Porcina Marianna das Virgens (1833-1900) e Antonio da Costa e Silva (1825-1899), patriarcas do ramo dos Costa Medeiros. As casas originalmente eram uma só, mas com a partilha dos bens do casal entre seus filhos, no final do século XIX, acabaram sendo divididas em várias residências, uma para cada filho. Hoje, seu aspecto está totalmente modificado. A da esquina com a Avenida Sete de Setembro, por exemplo, há anos foi transformada em loja pelos descendentes de uma das filhas do casal mencionado acima, Porcina da Costa Medeiros (1869-1935).

Além destes, outros edifícios históricos de Alcobaça estão diretamente relacionados aos Medeiros. O prédio da Prefeitura Municipal, que foi restaurado em 2008, teria sido construído, segundo a tradição popular, pelo coronel Garcia Jr., prefeito da cidade durante muitos anos na primeira metade do século XX. Devido à escassez de documentação pertinente, contudo, essa informação não pôde ser comprovada.

Da mesma forma, não pôde ser comprovada a informação de que a estrutura que envolve a Cacimba do Concelho, símbolo maior da cidade de Alcobaça, teria sido obra do mesmo prefeito Garcia Jr. Segundo estudiosos do IPAC-Bahia, a cacimba provavelmente data da segunda metade do seculo XVIII, mas a estrutura que a envolve tem elementos arquitetônicos típicos do final do século XIX, época em que Garcia Jr. “mandava” na cidade.

Por fim, outra relíquia arquitetônica de Alcobaça diretamente relacionada aos Medeiros é o sobrado dos Trancoso, mais conhecido como “sobrado do porto” ou “antiga cadeia”. Trata-se de um edifício em estilo neoclássico com localização privilegiada na Rua Senador Melgaço, número 5, às margens do rio Itanhém, em três pavimentos, construído, segundo a tradição, pelo capitão João Ferreira Trancoso (1829-1901). Por falecimento do capitão, o imóvel passa a pertencer à filha dele, Julita Ferreira Trancoso, que era casada em primeiras núpcias com Júlio de Carvalho Viana e em segundas núpcias com Felintho Muniz de Oliveira. Mais tarde, o sobrado pertenceu ao filho de Julita e Júlio, Júlio de Carvalho Viana Filho, que depois mudou de nome para Cândido Trancoso Sobrinho (1905-1970) e que o vendeu a seu tio, Antonio Garcia de Medeiros Netto (1887-1948). Finalmente, o imóvel foi doado pela família de Medeiros Netto à Prefeitura Municipal de Alcobaça, que o usava, nas décadas de 1960-1990, como cadeia. Atualmente, o prédio está passando por reformas para ser transformado em instituição cultural.

(Fonte: SAID, Fabio M. O clã Medeiros de Alcobaça-Bahia. São Paulo: edição do autor, 2009. pp. 280-284.)

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