quarta-feira, 8 de julho de 2009

Bernardo Garcia de Medeiros, um barba-azul na Alcobaça do século XIX

No século XIX viveu em Alcobaça um senhor muito distinto, membro de uma das famílias tradicionais, senhor de muitas terras e escravos, que se casou nada menos que seis vezes. Naquela época, a única possibilidade de alguém se casar mais de uma vez era por morte da esposa ou esposo. Esse senhor, portanto, foi viúvo 5 vezes e, mais que isso, várias de suas esposas eram irmãs umas das outras ou parentes dele próprio. Era um verdadeiro barba-azul, como no famoso conto de fadas. O nome dele era Bernardo Garcia de Medeiros. Veja abaixo a história de Bernardo (que, aliás, era meu tataravô), reconstituída graças a uma pesquisa que fiz em diversos manuscritos, documentos e registros do século XIX.

Bernardo Garcia de Medeiros nasceu em Alcobaça entre 1826 e 1830. Seu nome de batismo era uma homenagem ao santo padroeiro de Alcobaça, São Bernardo. Era filho do capitão João José de Medeiros (1780-1842) e de dona Úrsula Marianna das Virgens.

Em Alcobaça, ele foi um dos proprietários da Fazenda Ponte do Gentio, de 200 braças, herdada de seus pais. Era proprietário também das fazendas Serraria, Paragem e Porto dos Ayris, entre outras. Além de senhor de engenho, era presidente da Câmara de Vereadores em 1873 e também fez parte da Guarda Nacional no município, alcançando o posto de tenente-coronel. Naquela época, porém, os postos da Guarda Nacional eram comprados ou distribuídos entre os membros das elites das cidades.

Bernardo casou-se nada menos que seis vezes.

A primeira, em 1856, com Maria Bernarda do Rosário, sobre quem nada se sabe por enquanto. A esposa faleceu meses depois.

A segunda, em 1858, com Bernarda Maria do Rosário, irmã da primeira, também falecida pouco depois do casamento.

A terceira, em 14 de junho de 1860, com Bernardina Angélica de Nazaré Muniz (1837-1861), filha de André Muniz Cordeiro Graúna e Maria de Nazaré Monteiro. Bernardina foi a única esposa de Bernardo que lhe deu descendência. Do casal nasceu um único filho, João Bernardino de Medeiros, que depois se tornou, ele próprio, uma figura importante da política local (coronel João Bernardino, foto ao lado, do qual descendem as famílias Medeiros de Almeida, Figueiredo de Medeiros, parte da família Medeiros Guerra e outras). Bernardina faleceu um ano depois do casamento, em 1o de junho de 1861, em decorrência de complicações durante o parto de seu filho João Bernardino.

Dois anos depois de ficar viúvo pela terceira vez, Bernardo casou-se de novo, em 24 de junho de 1863, com Maria Dercília de Nazaré Muniz (1841-1864), irmã de sua falecida esposa. Mas menos de um ano depois, em 11 de março de 1864, Maria Dercília também faleceu.

O quinto casamento, em 1865, foi com a prima sobrinha Carolina da Silva Gomes (1842-1867), filha de Manuel da Silva Gomes (primo carnal do noivo) e de dona Umbelina Maria do Espírito Santo. Carolina faleceu em 8 de março de 1867.

Por fim, Bernardo casou-se, pela sexta vez, no dia 6 de fevereiro de 1869, com Anna Rita do Livramento. Desta vez, ele teve sorte e o casamento durou ainda 17 anos. Talvez porque o casamento foi realizado em Caravelas e não em Alcobaça, como os outros. :-)

Bernardo faleceu em Alcobaça no dia 12 de outubro de 1886, em decorrência de diabetes. Pouco antes de morrer, ele fez um testamento, assinado no dia 26 de agosto de 1886, no qual relatava parte de sua história, mas omitiu duas esposas, a quarta (Maria Dercília) e a quinta (Carolina), apesar de mandar encomendar uma missa em nome de uma Carolina sem mencionar que era sua esposa. Veja um trecho do testamento, escrito à maneira da época, sem atualização ortográfica:

(...) Declaro que fui cazado em primeira núpcia com Dona Izabel Maria de Figueiredo e em segunda com Bernarda Maria do Rosário, de cujos matrimonios não existe filho algum.

Declaro que depois passei a terceira núpcia com Dona Bernardina Angelica de Nazareth Medeiros, de cujo matrimonio tivemos um filho o qual existe de nome João Bernardino de Medeiros, e este é o unico filho que tenho e p meu unico e universal herdeiro.

Declaro que por ultimo cazei-me com Dona Anna Rita do Livramento, com quem ainda sou hoje cazado, em cujo estado me encontro e de cujo matrimonio até hoje não tivemos tido filho algum.

Declaro que por minha morte quero ser sepultado sem pompa alguma.

Declaro que por minha morte e por minha alma se mande dizer dez missas, por alma de meu pai, dez missas, por alma de minha mãe dez missas, por minha mulher Bernardina dez; e por alma de Carolina outras dez.

Declaro que devo em minha consciencia a quantia de duzentos mil reis à mulatinha Esmeralda, que tem vivido de pequenina em minha companhia, isto proveniente de seu trabalho de costura e bordados, que tem me dado os proventos e que tenho gasto, e quero se lhe pague em dinheiro ou em gado, conforme ela melhor entender porque neste sentido ia eu guardando os seus ganhos do mesmo seu trabalho.

Deixo forro para que goze de sua liberdade o meu escravo Manuel, porem com a clausula, de em caso de minha mulher depois do meu falecimento mudar-se para Caravelas, ele ajudá-la na condução do seu transporte até que ela fique ali residente. (...)

O testamento de Bernardo Garcia de Medeiros é típico da época e guarda preciosas informações sobre como era a vida na Alcobaça do século XIX.

Além disso, quanto ao fato de Bernardo ter tido seis esposas, é bom lembrar que na década de 1850 houve uma epidemia de cólera em Caravelas que deve ter atingido também a vizinha Alcobaça. E também vale lembrar que muitas mulheres morriam durante o parto por alguma infecção ou outro problema de saúde, por vezes em decorrência da higiene deficiente nos procedimentos de parto daquela época.

Bernardo Garcia de Medeiros foi um homem importante em Alcobaça, mas hoje em dia está esquecido. A não ser pelo seu nome, que foi passado de geração em geração dentro da família. Abaixo estão alguns descendentes de Bernardo que herdaram o nome do ancestral:

Bernardo Garcia de Medeiros
Bernardo Garcia de Medeiros (nascido em 1895), neto

Bernardo Figueiredo de Medeiros
Bernardo Figueiredo de Medeiros (1921-1967), bisneto


Bernardo Garcia de Medeiros (nascido em 1953), trineto

Todos eles com nomes que homenageiam o barba-azul da Alcobaça do século XIX.


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